A pequena pinta sob o olho dela
Ninguém o seguiu de imediato.
O homem idoso afastou-se lentamente, apertando a fotografia contra o peito enquanto a recepção continuava atrás dele como se nada tivesse acontecido.

Risos, música e conversas tentavam encobrir a tensão no ar. Valentina permanecia imóvel, com a sua expressão confiante começando a ruir.
Um segurança, Marcus Bell, percebeu quando a fotografia escorregou da mão do idoso.
Ele apanhou-a e observou a imagem em preto e branco já desbotada.
Nela, uma jovem mãe estava sentada ao lado de uma menina pequena com uma pinta escura sob o olho esquerdo.
Marcus levantou o olhar para Valentina.
Ela tinha a mesma pinta. — Desfaça-se disso — ordenou ela.
Mas Marcus continuou a olhar para a fotografia e depois para ela novamente. — Senhora… essa criança é a senhora.
As palavras atingiram-na como um choque.

Valentina pegou na fotografia e fixou os olhos na menina, na pinta e na jovem mãe que mal conseguia reconhecer.
De repente, memórias começaram a surgir. — Laura… — sussurrou.
Marcus olhou na direção do caminho. O homem idoso já desaparecia entre a multidão, afastando-se com o último vestígio da sua esperança.
Valentina deu um passo em frente. — Espere! — chamou.
A voz saiu demasiado fraca. — Espere!
Mas o homem continuou a andar.
As lágrimas encheram-lhe os olhos quando compreendeu a verdade. O homem pobre e destruído que ela tinha rejeitado era o seu pai.

Marcus observava em silêncio enquanto ele desaparecia por entre as tendas brancas, engolido pela luz do sol.
Valentina permaneceu entre taças de cristal e convidados ricos, apertando a fotografia nas mãos, percebendo tarde demais o que tinha perdido.
A pinta escura sob o olho esquerdo era igual à da criança na imagem desbotada.
O seu pai tinha desaparecido. Corte para negro.
