Quando a pequena menina atravessou o salão de baile, a música ainda continuava a tocar, mas todo o ambiente já havia parado.
O salão parecia inclinar-se para dentro, como se fosse atraído pelo som.
“Dois…” sussurrou a menina, e Evelyn sentiu o coração vacilar.

As lembranças vieram em ondas: Anna rindo na chuva, Anna numa cama de hospital após o acidente.
A culpa voltou com a mesma força de antes. Anos atrás, Evelyn havia escolhido um evento beneficente em vez do pedido da filha para que ficasse em casa. Não houve depois.
Um acidente numa estrada molhada tirou a vida de Anna, e o luto que se seguiu acabou se tornando a origem do estado de Evelyn. “Três.”
Algo mudou. Não era um milagre, mas um alívio. A respiração de Evelyn ficou mais leve.
Suas pernas já não pareciam tão distantes. Ao redor delas, o salão mergulhou em silêncio.
Apoiando-se nos braços da cadeira, Evelyn tentou se levantar. Tinha falhado incontáveis vezes antes.

Desta vez, apesar da dor e do tremor, conseguiu. Lentamente, com esforço, centímetro por centímetro, Evelyn Marrow ficou de pé sob os lustres, pela primeira vez em onze meses.
Ninguém aplaudiu. Os convidados apenas observavam em silêncio, como se testemunhassem algo profundamente íntimo.
Lágrimas encheram os olhos de Evelyn. Ao olhar para a menina, ela enxergou traços da bondade de Anna.
“Quem é você?” perguntou.
“Minha mãe trabalhava na ala leste da sua casa”, respondeu a criança. “Ela dizia que a senhora era gentil quando ninguém estava olhando.”
Evelyn lembrou. “O nome dela era Mira.”
A menina sorriu. “Eu sei.” Quando o salão lentamente voltou à vida, Evelyn virou-se para apresentá-la.

Mas a criança já não estava lá.
Ninguém a viu sair. Mais tarde, as buscas não encontraram qualquer vestígio.
Ainda assim, um antigo jardineiro, ao ver uma foto de Anna quando criança, comentou em voz baixa que a menina misteriosa se parecia impressionantemente com ela.
Evelyn nunca mais voltou a sentar-se naquela cadeira.
E, nas manhãs mais difíceis, quando o luto retornava, às vezes ela ouvia uma pequena voz contando: um, dois, três — e se perguntava se a cura havia vindo através da memória ou se a própria memória havia vindo ao encontro dela.
